Liderança, ESG, Diversidade
5 minutos min de leitura

Liderança multigeracional no Brasil

Este artigo traz uma provocação necessária: o conflito entre gerações no trabalho raramente é sobre idade. É sobre liderança, contexto e a capacidade de orquestrar talentos diversos em um mercado em rápida transformação.
Head de Aprendizagem na HSM e na Singularity Brazil, Eugenio Mattedi tem mais de 15 anos de carreira e se destaca na área de aprendizagem corporativa e transformação organizacional. Ele atua diretamente com grandes organizações complexas para desenvolver e aplicar soluções educacionais que geram valor real para pessoas e negócios. Sua experiência inclui consultoria em negócios e aprendizagem, com passagens relevantes pela Amana-Key e Afferolab. Além disso, como executivo de RH, liderou processos de transformação cultural e implantação de gestão de talentos em startups de tecnologia, sempre com foco em inovação e resultados. É mestre em Psicologia Social e do Trabalho pela USP, engenheiro de Produção Civil pela UTFPR, pós-graduado em Dinâmica dos Grupos e certificado em Coaching pela Erickson

Compartilhar:

Em uma startup de tecnologia brasileira, Ana, a líder de produto, com 38 anos (Gen Y), enfrenta o desafio de integrar um desenvolvedor recém-formado de 22 anos, Lucas (Gen Z), que busca ascensão rápida, com uma especialista de dados de 55 anos, Osvaldo (Gen X), que valoriza estabilidade. O que à primeira vista parece um potencial choque geracional, é, na verdade, um sintoma de um problema mais profundo: expectativas desalinhadas, rituais de gestão frágeis e pouca clareza sobre as necessidades de cada indivíduo para desempenhar o seu melhor.

No Brasil, a leitura das gerações não pode se limitar a “clichês de idade”. Aqui, as diferenças entre as gerações são profundamente atravessadas por classe social, território e acesso à tecnologia. Uma pesquisa com jovens brasileiros da Gen Z mostrou que a busca por propósito é mais comum entre classes mais altas, enquanto classes CDE priorizam estabilidade [1]. A dificuldade de análise é amplificada por um “abismo digital” que ainda separa de forma clara as experiências de acesso à internet entre classes e regiões [2].

O mercado de trabalho brasileiro reflete essa realidade multifacetada. Em 2025, o país registrou uma taxa de desemprego de 5,1%, com recorde de 38,9 milhões de pessoas com carteira assinada no setor privado [3]. Contudo, a informalidade ainda alcançou 37,5% [4], evidenciando uma disparidade regional e social persistente. Além disso, o engajamento dos trabalhadores brasileiros caiu ao menor nível da série histórica em 2025, gerando uma perda anual estimada de R$ 77 bilhões para a economia [5].

A força de trabalho está em rápida transformação. A adoção de inteligência artificial apresenta desafios críticos sob a ótica de gerações: 56% das empresas brasileiras estão reduzindo contratações para cargos de entrada, enquanto 91% das organizações no mundo dizem que funções já estão mudando ou desaparecendo devido à automação por IA [6]. O resultado? Uma lacuna de habilidades em expansão e um desafio crescente para desenvolver a próxima geração de líderes.

Diante dessa pluralidade de realidades, a liderança precisa ir além das generalizações. A complexidade do mercado de trabalho brasileiro exige que líderes abandonem abordagens simplistas e orquestrem talentos diversos com expectativas variadas em um ambiente de alta volatilidade. Para isso, três papéis se tornam cruciais para a atual liderança multigeracional:

1. Tradutor de propósito e fases da vida

O líder precisa compreender que as motivações e necessidades variam não só ao longo da vida, mas também conforme outros contextos (socioeconômico, fluência digital etc.), o que reforça a necessidade de abordagens cada vez mais personalizadas. Nesse sentido, é necessário ter escuta atenta para, de acordo com a trajetória profissional do indivíduo, aplicar abordagens sob medida para atrair, engajar e retê-lo. Além disso, o papel da liderança é traduzir a estratégia da organização de forma que ele ressoe com as diferentes realidades, conectando o dia a dia do trabalho a aspirações individuais (de desenvolvimento, segurança, flexibilidade, autonomia), seja para um recém-chegado da Geração Z ou para um profissional sênior.

2. Curador da aprendizagem e da transferência de conhecimento

A diversidade geracional é um ativo valioso para a inovação e a resiliência organizacional. O líder deve atuar facilitando a troca de saberes entre as gerações. O conhecimento tácito acumulado por colaboradores mais antigos é um ativo competitivo e precisa ser transformado em conhecimento compartilhado para que a empresa preserve sua memória e aumente sua competitividade [7]. Isso envolve criar programas de mentoria reversa, onde os mais jovens compartilham novas perspectivas, e os mais experientes transmitem sua experiência acumulada. Projetos intergeracionais, que exigem a colaboração de diferentes faixas etárias, são excelentes para quebrar silos “etários” e construir conexões mais autênticas, garantindo que o conhecimento tácito não se perca e que novas ideias tenham espaço.

3. Designer de rituais de perfomance e confiança

Não basta chamar o time para uma reunião ocasional sem pauta definida. É preciso criar mecanismos de gestão intencionais que não apenas reforcem a disciplina de execução, mas onde a colaboração entre gerações possa florescer. Isso envolve desenhar rituais claros de feedback, estabelecer critérios transparentes para avaliação e reconhecimento de performance, e promover diálogos que permitam a troca genuína de perspectivas. Pesquisas sobre rituais em grupos de trabalho mostram que essas práticas aprimoram o significado do trabalho e fortalecem a experiência compartilhada da equipe, apoiando a produtividade e o alinhamento [8]. O líder deve ser o promotor dessas práticas, não só assegurando clareza e disciplina de execução, mas também um ambiente de abertura e confiança no qual todas as pessoas têm vez e voz.

Em suma, o desafio da liderança multigeracional no Brasil não se reduz a administrar rótulos etários, ou lançar mão de abordagens genéricas ou replicar sem questionamento melhores práticas importadas; mas sim desenhar um modelo de trabalho para pessoas reais que reconheça e valorize as múltiplas realidades. Liderar times multigeracionais é fomentar as condições para que pessoas em diferentes fases de vida possam florescer, com alto desempenho, aprendizado contínuo e um forte senso de pertencimento.

 

Referências

[1] VALOR ECONÔMICO. A parcela mais rica da geração Z é a única que busca propósito no trabalho, diz pesquisa. Disponível em: https://valor.globo.com/carreira/noticia/2025/09/20/a-parcela-mais-rica-da-geracao-z-e-a-unica-que-busca-proposito-no-trabalho-diz-pesquisa.ghtml. Acesso em: 29 mar. 2026.

[2] Itaú Cultural. Abismo digital: desigualdades e privações no acesso à internet no Brasil. Disponível em: https://itaucultural.org.br/secoes/publicacoes/abismo-digital-desigualdades-acesso-internet-brasil

[3] IBGE. Desocupação cai para 5,1% em dezembro, e 2025 tem melhores resultados da série histórica. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie

[4] Agência Brasil. Taxa de informalidade cai no mercado de trabalho, mostra IBGE. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/taxa-de-informalidade-cai-no-mercado-de-trabalho-mostra-ibge

[5] FGV. Engajamento no trabalho cai ao menor nível da série histórica e gera perda anual de R$ 77 bilhões. Disponível em: https://portal.fgv.br/noticias/engajamento-no-trabalho-cai-ao-menor-nivel-da-serie-historica-e-gera-perda-anual-de-r-77

[6] AI at Work: The Role of AI in the Global Workforce. InfoBrief comissionado por Deel, 2025. Disponível em: https://www.deel.com/the-role-of-ai-in-the-global-workforce/

[7] ALVES, A. C.; ZOTES, L. P. A gestão do conhecimento como ferramenta de gerência e transferência de conhecimentos nas organizações. AEDB / SEGET. Disponível em: https://www.aedb.br/seget/arquivos/artigos18/552652.pdf

[8] Kim, S., Sezer, C., & Tost, L. P. Work group rituals enhance the meaning of work. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 165, 1-13. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0749597821000637

Compartilhar:

Artigos relacionados

Liderança
21 de maio de 2026 07H00
Quando ninguém mais acredita, a organização já começou a perder. Este artigo revela como a incoerência entre discurso e prática transforma cultura em aparência - e mina, de forma silenciosa, a confiança necessária para sustentar resultados e mudanças.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Liderança
20 de maio de 2026 14H00
Entre decisões de alto impacto e silêncios que ninguém vê, este artigo revela o custo invisível da liderança: a solidão, a pressão por invulnerabilidade e o preço de negar a própria humanidade - justamente no lugar onde ela mais importa.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de maio de 2026 08H00
Grandes decisões não cabem em um post. Este artigo mostra por que as decisões que realmente importam continuam acontecendo longe da timeline.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de maio de 2026 13H00
O caso Klarna escancara o verdadeiro gargalo da IA nas empresas: não é a tecnologia que limita resultados, mas a incapacidade de redesenhar o organograma - fazendo com que sistemas capazes operem como consultores de luxo, presos a decisões que continuam sendo tomadas como antes.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

10 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Lifelong learning
19 de maio de 2026 07H00
A partir de uma cena cotidiana, este artigo reflete sobre criatividade, filosofia e o risco de terceirizarmos o pensamento em um mundo cada vez mais automatizado (e por que o verdadeiro diferencial continua sendo a qualidade da nossa atenção).

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Lifelong learning
18 de maio de 2026 15H00
Mais do que absorver conhecimento, este artigo mostra por que a capacidade de revisar, abandonar e reconstruir modelos mentais se tornou o principal motor de aprendizagem e adaptação nas organizações em um mundo acelerado pela IA.

Andréa Dietrich - CEO da Altheia - Atelier de Tecnologias Humanas e Digitais

9 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Marketing & growth
18 de maio de 2026 08H00
A partir de uma experiência cotidiana de consumo, este artigo mostra como a inteligência artificial passou a redefinir a jornada de compra - e por que marcas que não são compreendidas, confiáveis e relevantes para os algoritmos simplesmente deixam de existir para o consumidor.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de maio de 2026 17H00
E se o problema não for a falta de compromisso das pessoas, mas a incapacidade das organizações de absorver a forma como elas realmente trabalham hoje?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
17 de maio de 2026 10H00
Muito além do algoritmo, o sucesso em inteligência artificial depende da integração entre estratégia, dados e times preparados - e é justamente essa desconexão que explica por que tantos projetos não geram valor.

Diego Nogare

7 minutos min de leitura
Liderança
16 de maio de 2026 15H00
Sob pressão, o cérebro compromete exatamente as competências que definem bons líderes - e este artigo mostra por que a falta de autoconsciência e regulação emocional gera um custo invisível que afeta decisões, equipes e resultados.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão